A diferença entre graça e desgraça

Por Renata Poskus Vaz

Desde que voltei do Rio de Janeiro, do concurso Miss Plus Size Carioca em que fui uma das juradas, pensei em postar algo meio chato que aconteceu por lá. Mas, com tanta coisa bacana, achei por bem deixar esse assunto para depois.

Quando cheguei com minha amiga e também jurada Cris Miranda na Lona de Jacarepaguá, local de realização do Miss Plus Size Carioca, aguardei a abertura do evento ao lado de uma cantina, afastada da entrada principal, da maior concentração de pessoas e, consequentemente, da imprensa. Depois de uns 10 minutos, um grupo de rapazes nos abordou perguntando se poderíamos conceder uma entrevista para um programa chamado “Rey da Imprensa”. Primeiro perguntaram se éramos candidatas. Eu disse que éramos juradas. Depois ,sem dizer que se tratava de um programa humorístico, um rapaz cujo nome é Fabio Matos iniciou a entrevista com minha amiga Cristiane. Não consegui ouvir sobre o que conversaram, mas sei que da minha vez ele fez uma série de perguntas de duplo sentido, sempre sobre comidas.

Rey da Imprensa entrevistando Cris Miranda

Sinceramente, não tenho nada contra programas de humor. Mas, acredito que piadas tenham limite. Após umas duas piadinhas sem graça sobre gordinhas, quando me perguntou se eu preferia ir à restaurantes à La Carte ou à restaurantes Self -service, eu disse que isso era um preconceito que tinham sobre gordinhas. Defendi que muitas meninas estão acima do peso não por gostarem de comer exageradamente, mas porque têm problemas metabólicos, outras porque sofrem de depressão e de suas consequências, como a ociosidade por conta do isolamento social e de distúrbios alimentares também. Oras, mesmo após minha “dura” educada (sim, porque agora faço a linha phyyyyna), ele continuou com piadinhas e piadinhas e piadinhas.

Outro dia mesmo, aqui no Mulherão, comentei que não achei correto uma modelo que deu entrevista ao CQC, depois sair falando mal da edição pois é de conhecimento público que a atração faz humor escrachado. Entretanto, quando me predispus a dar uma entrevista ao rapaz, não sabia que ele era um CQC piorado somado com um Pânico na TV de terceira linha, sem nenhum tato, sem nenhum respeito. Respeito qualquer jornalista, independente do seu veículo. Não o conhecia, mas acreditava que merecia o crédito da minha confiança e, por isso, aceitei dar entrevista.

Eu, tentando ser simpática e educada com o aprendiz de humorista

Após alguns segundos, pedi desculpas e disse que não poderia prosseguir com a entrevista pois eu era um exemplo para milhares de meninas acima do peso e que rindo daquelas piadas eu estaria compactuando com idéias preconceituosas. E completei: “você está em um evento de gordinhas, não é engraçado esse tipo de abordagem”. Eles desligaram a câmera e continuamos um bate-papo informal. Contei do Fashion Weekend Plus Size, do Blog Mulherão e dei uma sintetizada sobre o movimento plus size no Brasil. Afinal, muitas pessoas são ignorantes e fazem papel de babaca simplesmente por desconhecerem completamente a realidade de outras pessoas. Ele disse: “poxa, não sabia de tudo isso” E acrescentei que como repórter ele deveria fazer uma pesquisa prévia na internet antes de qualquer entrevista, pois se não ficaria eternamente refém de piadas sem graça por falta de argumentos.

Depois, brincando e tentando quebrar aquele climão chato, quis mostrar que sou engraçadinha e falei apontando para meu corpitcho: “poxa, olha pra mim, meu namorado é esportista, sarado, gostoso e tem dezenas de magrinhas atrás dele, mas é comigo que ele namora”.  Fabio Matos, então, pediu que eu repetisse isso no video. E lá começamos novamente a entrevista. Não lembro o porquê, mas em determinado momento comecei a falar de problemas de saúde que a obesidade pode causar:

“Por exemplo, minha mãe morreu de embolia pulmonar decorrente de uma trombose…”, falei. Foi quando ele me interrompeu: ” E quando sua mãe entrava nos lugares o chão balançava?”.

Gente, quem tem mãe sabe, não se brinca nem com mãe viva, quanto menos com mãe falecida. Imediatamente o interrompi em tom bem ríspido, quase voando em seu pescoço: “você não tem respeito por alguém que nem está vivo para se defender?” E ele disse:” não sabia que sua mãe tinha morrido”.

Fiquei pasma. Sou jornalista, nunca atuei com TV, mas já entrevistei diversas pessoas ao longo desses 6 anos de carreira se há uma coisa aprendi é que embora nós jornalistas gostemos muito de falar, nossa missão primordial é escutar. Realmente não acho que o rapaz que pensa que é jornalista teve real intenção de fazer uma brincadeira com o fato de minha mãe estar morta, mas seu despreparo o fez se dedicar a ficar pensando em bobagens e elaborando perguntas idiotas ao invés de me escutar para só então formular uma nova pergunta.

Só consegui virar as costas, caso contrário perderia todo o meu glamour. Mas antes, claro, virei e disse: “cuidado rapaz, na ânsia de fazer graça você só faz desgraça”.

Postei esse texto hoje pois vi diversas garotas adcionando o rapaz no Facebook e ele mesmo anunciando que viria ao Miss Plus Size de São Paulo. Sei que há duas pessoas organizando um evento do gênero em São Paulo, Adilton e Renata. Confio plenamente em ambos e sei que jamais permitirão que uma pessoa desse nível visite seus eventos.

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